Numa revelação exclusiva do
jornal The Telegraph,
intitulada "Crianças pagas em ensaio do NHS sobre bloqueadores da
puberdade, com o apoio de Streeting", sabe-se que mais de 200 menores
de 16 anos, com identificação transgénero, serão incentivados através de vales
a participar num polémico ensaio clínico do Serviço Nacional de Saúde (NHS)
britânico. O estudo, que conta com o apoio do Secretário da Saúde, Wes
Streeting, visa monitorizar os efeitos destes fármacos em jovens com disforia
de género; contudo, a iniciativa levanta sérias reservas éticas e médicas,
sobretudo sob uma óptica crítica que questiona a medicalização precoce da
identidade de género em menores.
O ensaio, denominado
"Pathways" e liderado por investigadores do King's College London,
recebeu um financiamento de 10,7 milhões de libras do Instituto Nacional de
Investigação em Saúde e Cuidados (NIHR). Prevê-se que 226 crianças, tratadas em
clínicas especializadas do NHS para disforia de género, recebam bloqueadores de
puberdade – fármacos que suprimem o desenvolvimento natural do corpo durante a
adolescência. Em troca de completarem testes e questionários, os participantes
serão recompensados com vales, uma prática que os críticos comparam a um
incentivo financeiro para famílias vulneráveis. O estudo, que deverá decorrer
até 2031, monitorizará os jovens apenas durante dois anos, um período que
muitos especialistas consideram insuficiente para avaliar os impactos a longo
prazo, como alterações permanentes no cérebro, infertilidade ou enfraquecimento
ósseo, conforme destacado no Relatório Cass de 2024.
Esta iniciativa surge num
contexto de crescente escrutínio sobre os cuidados de género para menores no
Reino Unido. Após o encerramento da clínica Tavistock em 2024, devido a
preocupações com práticas ideológicas e falta de evidência científica, e a proibição
de prescrições de bloqueadores de puberdade no NHS e no sector privado, este
ensaio representa a única via para aceder a estes tratamentos. No entanto, de
uma perspectiva crítica do género – que enfatiza a exploração de causas
psicológicas e sociais da disforia em vez de intervenções médicas irreversíveis
–, esta abordagem é vista como um retrocesso perigoso. Críticos argumentam que
a disforia de género em adolescentes pode ser transitória, influenciada por
factores como trauma, autismo ou pressões sociais, e que bloquear a puberdade
natural equivale a uma experimentação em crianças que ainda não têm capacidade
para consentir plenamente.
Antigos médicos e outros
profissionais da extinta clínica Tavistock vieram a público alertar para o
risco de este ensaio repetir falhas passadas. Classificam a iniciativa como
"danosa" e pedem que a mesma seja suspensa de imediato.
Nigel Farage, líder do Reform UK, foi mais
longe, classificando-o como "abuso infantil patrocinado pelo Estado"
e exigindo que o Primeiro-Ministro intervenha para travar esta
"investigação eticamente indefensável".
Até o BMJ (British Medical Journal), uma das revistas médicas
generalistas mais antigas, influentes e prestigiadas do mundo) reportou que antigos
clínicos da Tavistock recusam referenciar pacientes para o estudo, citando a
falta de aprovação regulatória e ética pendente.
Numa altura em que países como a
Nova Zelândia baniram os bloqueadores de puberdade para menores, e o Relatório
Cass concluiu que estes fármacos podem "reconfigurar permanentemente océrebro", a decisão do NHS de prosseguir com incentivos financeiros parece
particularmente problemática.
A oferta de vales a crianças e
famílias pode ser interpretada como uma forma de coação subtil, explorando o
desespero de pais que procuram soluções rápidas para o sofrimento dos filhos.
Esta prática levanta sérias dúvidas sobre o consentimento informado: como
poderá uma criança de apenas oito anos – a idade mínima referida em alguns
relatos – compreender as implicações de adiar a puberdade, incluindo riscos de
osteoporose ou os impactos na saúde mental a longo prazo?
A Realidade Portuguesa: Um
Paralelo Alarmante de Medicalização e Confusão Identitária
Em Portugal, o panorama dos
cuidados de género para menores ecoa preocupações semelhantes, mas com
contornos agravados pela adopção precoce de políticas de autodeterminação de
género. Desde 2018, a Lei n.º 38/2018 permite a alteração legal do género sem necessidade
de diagnóstico médico, estendendo-se a jovens a partir dos 16 anos, o que
posiciona o país como um dos mais progressistas na Europa em termos de direitos
trans, segundo a ILGA-Europe.
No entanto, esta abordagem tem sido criticada por fomentar uma "afirmação
imediata" que ignora potenciais influências sociais e psicológicas na
disforia de género, levando a um aumento exponencial de casos entre
adolescentes.
Associações como a AMPLOS
(Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de
Género) e a ILGA Portugal defendem veementemente a validação imediata da
identidade de género declarada pelas crianças, promovendo o encaminhamento para
tratamentos hormonais, incluindo bloqueadores de puberdade. A AMPLOS, por
exemplo, publicou guias para escolas que incentivam a aceitação de identidadestrans em contextos educativos, alertando contra "actos de
intolerância" que, na visão crítica, podem incluir questionamentos
terapêuticos legítimos.
A ILGA, por seu lado, foi preponderante
na aprovação da legislação que proíbe as terapias de conversão em 2023. Esta
medida, embora surja sob o pretexto de "proteger direitos", não é
mais do que uma restrição à exploração holística da disforia, podendo resultar
em penas de prisão de até três anos para os profissionais que questionem a
autoidentificação.
Este enquadramento tem
contribuído para uma realidade onde crianças e adolescentes, influenciados por
narrativas culturais e online, enchem consultórios de psicólogos e psiquiatras
com confusões identitárias. Médicos de cuidados primários expressam preocupações
com directrizes oficiais que ainda recomendam bloqueadores de puberdade como
opções "reversíveis", apesar de evidências internacionais – como as
de Suécia, Finlândia e França – que restringem o seu uso devido a riscos como
impactos no crescimento ósseo e desenvolvimento cognitivo. Uma especialista em
saúde trans, Zélia Figueiredo, confirmou o duplicar de consultas privadas desde
a pandemia, com uma média de nove novos pacientes por mês, muitos dos quais
jovens com disforia de início rápido (ROGD), potencialmente ligada a fatoressociais em vez de inatos.
Os críticos argumentam que esta
"sedução" ideológica – promovida por associações e políticas estatais
– medicaliza indevidamente a adolescência, transformando crises de identidade
normais em caminhos irreversíveis. Estudos indicam que o bloqueio puberal afecta
o crescimento, com maior impacto em raparigas que se identificam como trans, e
que a maioria das disforias se resolve naturalmente na idade adulta semintervenção. Associações como a
AMPLOS e a ILGA insistem na afirmação imediata, mas relatos de famílias e
profissionais sugerem que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrenta carências
graves, com respostas inadequadas que priorizam a ideologia em detrimento daevidência científica.
Num país onde o acesso a hormonas transgénero é permitido a partir dos 16 anos,
sem requisitos rigorosos, esta tendência arrisca perpetuar um ciclo de confusão
e arrependimento, ecoando os erros britânicos.
Sob uma ótica crítica do género,
tanto este ensaio britânico como a realidade portuguesa perpetuam uma narrativa
ideológica que privilegia a "afirmação" imediata da identidade de
género em detrimento de uma abordagem holística e cautelosa. Em vez de
investirem em terapias de exploração que abordem as causas profundas da
disforia, o NHS e o SNS optam por vias farmacológicas experimentais, ignorando
as evidências de que a maioria das crianças com disforia desiste da transição
ao atingir a idade adulta. Já foram, inclusive, lançadas ações judiciais contra
a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) e a Autoridade
de Investigação em Saúde (HRA), alegando "danos vitalícios" para os
menores envolvidos.
Wes Streeting, que outrora
prometeu proteger as crianças da "contágio trans", é agora acusado detraição por permitir este ensaio, contrariando as recomendações do Relatório
Cass.
Num momento em que a sociedade debate os limites da intervenção médica em
identidades fluidas, este desenvolvimento sublinha a necessidade urgente de
priorizar a salvaguarda da infância sobre agendas ideológicas. O Governo
britânico e o português devem reconsiderar estas iniciativas, optando por
investimentos em saúde mental e apoio psicológico, em vez de experiências que
arriscam o futuro de gerações vulneráveis.



